09 Dezembro 2009

Good News & Bad News

Depende sempre da perspectiva, mas se más noticias houverem, é que A Última Estação de Ricardo S., vai encerrar, temporariamente, muito em breve. E porquê? Se calhar é irrelevante…
As outras notícias, dizem respeito aos que acompanharam a Estação durante todo este tempo… este humilde convida a quem houver por bem, a “ajudar” na difícil tarefa de escolher, avaliar, criticar e tudo que vier à cabeça dos que assim desejarem. Para os que desejarem um free-pass para a Última Estação, bastará enviar um mail para o endereço abaixo… quando o número de companheiro de árdua tarefa estiverem reunidos, o acesso ao blog só estará aberto a esses “privilegiados”.
Mas, enquanto este não “encerrar”, será uma ajuda preciosa, a quem o desejar, deixar lá na Esplanada, uma avaliação de estrelinhas (o melhor que arranjei, por ora…), um comentário, uma, duas ou três sugestões, que serão de uma inestimável ajuda a este humilde.
O resto da história… logo se verá!

Para já, um enorme abraço e um agradecimento do tamanho do mundo, conhecido e desconhecido.

Bizarril, 8 de Dezembro

|aparte: enviar e-mail para ultimaestacao@gmail.com, com primeiro e último nome ou pseudónimo, e país de residência… o resto? O que vos aprouver!|

14 Novembro 2009



|para mais informações, ver aqui ao lado a raison d'être|

25 Outubro 2009

Também na mão mais obscura

















Também na mão mais obscura

Se escreve uma parte desse poema interminável

Almas e naturezas
Que se juntam na frágil união
De querer e perecer no quadro mais puro

Sem data

Talvez, o Passado















Talvez. Talvez o passado nem sempre seja aquilo que imaginas, uma essência estranha e obscura, que de um momento para o outro se torna uma combinação feliz, um momento, um momento inesquecível

A esse que não voltarás
Porque talvez nem tenha sido exactamente como o contaste.

O passado. Talvez seja um mero motivo para reagir, um plano contado à pressa que toma por vezes, proporções de quintessência, algo que contas à pressa porque tens medo de começar a mentir. Eis um motivo para que possas escrever. Talvez.

Talvez, para não perder esse olhar único, que é escutar pelos olhos da razão. Talvez, o passado nem sempre tenha sido assim, mas agora, toma tons claros, aparências felizes e originais. Agora que tudo passa, entre cardos e rosas, talvez, haverá uma sombra de passado diluída em ti.

23 de Novembro de 1992

O Grande Livro

















No centro do tempo. Justamente no centro do tempo, houve noites em que a lua atraiçoou a memória, o fugaz eco dos nossos corpos cansados, e a recordação, a recordação era para nós, os que atravessamos conscientes da barreira do tempo e da carne, o exercício que nos mantinha, o néctar subtil que nos preenchia os dias e as noites, a própria poesia do tempo. O tempo distante que percorreu estas colinas e a cidade de cinzas e pó, a vida e os homens que sempre estiveram gravados no grande livro das gerações de Orph, ou simplesmente, o livro de Orph.

Foi o último dos filhos do grande livro, a busca desse mestres, que me trouxe até esta terra distante, que se oculta dos mapas e dos globos terrenos, na curiosidade simples que se tem que verificar se por hipótese, se a nossa alma poderá entrar em fusão contínua com os mestres, a sedenta procura pelos ensinamentos quase divinos dos grandes professores da disciplina e existir – a memória dos velhos homens que fizeram desta estranha cidade o seu corpo, a cidade das cinzas no centro do tempo.

|sem data – 1993|

21 Outubro 2009

Ah, quanto eu queria navegar… ou a explicação da Barca dos Amantes!

| este post, este texto foi feito em exclusivo para o Impressões Digitais, mas tem toda a pertinência editá-lo aqui nesta esta esplanada|

|fotografia e cpt por.8536720|

1. Sentou-se Mariana nas desengonçadas escadinhas do Cais das Colunas e escutou os ruídos, escutou as luzes que do outro lado do rio chegavam numa pequena barca, uma carcaça de ouro pálido e palavra. A seu lado, um homem, não tão velho como o tempo, mas com a idade das escrituras sagradas, alto e de negro, respondeu-lhe entre os dentes polidos pelos lamentos de outras outroras, que ali, no outro lado, na outra margem, lhe chamavam de Almada, Cacilhas, Trafaria mais além, e o mar grande ao fundo, e que ali onde as sombras lhes saltavam para o colo, abanando as invisíveis caudas, ali no lugar das sombras, era o Cais do Infortúnio Antigo, das Colunas que uma vez suportaram o mundo, aqui mesmo, neste triste lugar, nas escadas enegrecidas de tão nobres, onde Mariana se sentava, a olhar o barco que chegando ao pequeno caís improvisado pelas mãos solitárias e provisórias dum aprendiz de escritor.
Atrás de si, as luzes que piscavam, os sinais ou semáforos, como lhes chamavam aqui, pareciam improvisados, um policia sinaleiro de metal e luz, umas vezes verde e outras de vermelho rubro. E a Mariana, agora, no final do dia inventado por estas mãos que escrevem, parece um ponto apenas, um minúsculo ponto, entre o crepúsculo, a aura do mundo em laranja e amarelo ensanguentado, e Mariana, que recém que chegou na capital, à parte ínfima duma cidade importante, a grande e genuína que aos olhos tristes de quem passa, é uma cidade suja e fatalmente insignificante, sombria, mas para Mariana, o centro que os dias lhe haveriam de reservar.

E o homem velho das escrituras, a seu pedido, desenhou-lhe as gaivotas, melancólicas mensageiras de Deus, que voavam em torno do velho cacilheiro, desenhou-lhe as figuras em contornos de sombra, os homens e mulheres das outras bandas, como se fora uma peregrinação de todos os dias, os seus movimentos lentos e breves, o ritmo silencioso de todos e todos os dias.

E então, furtiva a explicações, delicadamente levantou-se Mariana, evitando as pedras magoadas, frágeis de longas gerações, evitando a quebradiças ruas e pedras de cetim dos arcos, deparando um pouco adiante, duas as duas, com raparigas frágeis e de mãos sinceras e debruadas de magias simples, gravando no tempo colares, pulseiras e máscaras de feitiços envelhecidos e em mau estado; nunca tinha Mariana visto uma Augusta Rua do tamanho de tantos lugares e parou; ajoelhou-se, encostou o ouvido na calçada e como quem quer no tempo navegar, escutou o que lhe diziam as carcaças da cidade, onde poderia encontrar a barca dos amantes, ali mesmo onde esteve antes, nesse rio da poesia…
Escutou com atenção as coordenadas que haveria de levar no coração e foi Mariana cumprir outro dia.

2. Se alguma razão pudesse explicar para apelidar a esplanada de letras mais recentes de A Barca dos Amantes, seria somente por um único motivo: essa Barca dos Amantes, que o Sérgio Godinho e o Milton Nascimento, cantaram, é a mais aproximada noção que tenho do que a roda do mundo tem por poesia… e o que isso é, a poesia? Talvez que seja assim algo que

“E que em toda a parte
O teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no seu mais fundo
Posso agitar-me no vento
E mostrar a cor no mundo”


Portanto, Caro Sérgio… hoje a poesia soube-me a pouco!

Castelo Rodrigo, 20 de Outubro

13 Outubro 2009

Tudo vale a pena, quando a alma… não se empena

|por.8536720, em cpt|

|este breve texto, foi um dos meus posts iniciais das Impressões Digitais, e que penso fazer sentido aqui e com alguma oportunidade, até porque já se avista a última estação…|

“Mais do que um impulso literário legítimo, se existe,
o que me movia era o desejo de vã glória entre as raparigas magalhânicas”.

Francisco Coloane, Os Passos do Homem


Descobri, quase por acidente mas por intuito quase precoce, que escrever poesia (ou lá como lhe chamam na adolescência!), dá óptimos resultados no curto prazo e alguns deles, muito para além do seu objectivo inicial, distendem-se pelo tempo fora, sempre com a glória e a fama adiada mas apesar de tudo, garantida, ou quase; dava trabalho, é certo, mas o resultado sempre foi proporcional á sua compensação. Ou assim ousei crer.


Com um pouco de engenho e paciência nas práticas miraculosas da manipulação das palavras, sempre se conseguem angariar meia dúzia de admiradoras fiéis na escola secundária, ferozes na concorrência da novidade, as últimas linhas do trovador improvisado, mas genuíno, nada de cópias, ainda que permitidos os lugares comuns, que no ramo bastante exigente que é o acto criativo da poesia, são tolerados, senão insubstituíveis. Claro que fórmulas que recorrem ao “sol do meu olhar”, “até á eternidade”, “amor ardente, para sempre”, “sem ti jamais serei alguém”, estão de imediato excluídas, dado o pouco impacto na plateia das pretendentes, além de que qualquer eterno candidato ao Nobel já as utilizou exaustivamente., quem sabe com a mesma motivação.


De entre algumas e motivantes tentativas, consegui sabe-se lá por que artes uma das minhas pequenas pérolas que me rendeu uma namorada a titulo provisório e umas quantas pretendentes em fila de espera:

Gosto de ver
E desfolhar o amor
Como se fosse o processo do dia
Visto ao contrário.
Ver a sombra, o mar,
A luz fugidia,
Que é ver o pôr-do-sol
Como se ele fosse nascer.
Ver a sombra
O mar e sentir
Que o penar não é nunca renascer
Mas só tarde descobrir
Que o Sol, esta terra e tu
São a parte mais discreta do Ser
E que amar-te,
Como se olha o fim do dia,
É ter-te completamente
Sem nada em ti me pertencer.

Et voilá, simples e eficaz. Uma boa parte dos poetas no seu estado mais primitivo, recolhem benefícios a torto e a direito, inclusive nas notas da disciplina de Português, se fizerem passar uns quantos rascunhos “só para professora ver”, pois que nunca saberão as pobres coitadas se não passarão ao lado dum promissor (sempre promissor) Pessoa ou dum Régio, sem que se tenham apercebido, e vai daí que puxam sempre dumas notas mais benevolentes que o pobre trovador não poderá negar, não vá o diabo tecê-las e o ajudante embrulhá-las. Mas neste particular, o conteúdo será inevitavelmente mais ambicioso, mais estruturado, sem plágios mais uma vez, mas com verve, com dramatismo, com um pouco de solidão e loucura, a tal destinada a todos os aspirantes desse circulo feroz e que só pode ser inconfundível;

“Curiosa a escrita do Sol
Onda de fogo, sombra das Estrelas.
Murmúrio enquanto Luz
Esta presença inscrita entre Deus e os homens.”[1], ou

“Pintadas todas as cores e compostas todas as palavras,
Pouco mais me resta senão escutar o canto rouco dos pássaros
E observar as ondas que não repousam o seu ritmo.
Observar pacientemente todas as naturezas quase mortas,
Que é possivelmente o mais antigo ritual do mundo
Que te habita.” [2]

Com sorte até professoras de outras áreas menos atraentes poderão beneficiar o criativo que não belisca nada de biologia ou física, pois de tal modo ofuscado nas suas artes que valerá sempre beneficiar dum pouco de estado de graça.


Mas, existem, contudo alguns revezes, sobretudo quando a fama já ultrapassa somente a expectativa. Durante esse período conturbado do pequeno poeta tenta algumas revistas da especialidade, um ou outro suplemento dito jovem, e vai daí que os tipos bombardeiam-nos com grosseiros comentários de mau gosto, num incompreensível jogo de gato e do rato, do qual este que se preza só desistiu do DN Jovem, quando aqueles se renderam a publicar umas quantas linhas no estilo “worst of” tão apreciado pelos ratos escondidos de serviço que me pediam (como ao resto da prole que esforça que nem danados, para ter um pequeno momento de glória), sem me ter conseguido ao valente prémio das “criticas” indigestas, mais non-sense que o que enviava para o dito suplemento. Entretanto sempre me interroguei sobre o que é que estes iluminados não diriam do precoce Salman Rushdie, do jovem Murakami, das Tolentino Mendonça ou dos Jacintos Pires, enquanto adolescentes borbulhentos? Na pior das hipóteses, “olha, escreve às carradas tipo Lobo Antunes ou Paulo Coelho, ‘tás a ver, e terás mais visibilidade, notabilidade, mesmo que a tua escrita pareça um amontoado aleatório de recortes de jornal, etecetera”. O poeta jubila em entrar no jogo e sair dele, com duplo cartão amarelo, que nem sempre é o mesmo que um vermelho. Dói mais quando as Dulcineias desta vida nem sabem o que é uma declaração de amor, senão pelas telenovelas híbridas, fingidas, que não têm de longe a deliciosa beleza que fingir com um poema um amor que pode existir. Sem limites.

Quando o jogo perde o sentido, começam os poemas incompletos a ser guardados nas gavetas, nas pastas esquecidas, entre os amigos que com benevolências nos incentivam, nos impelem a procurar uma editora, mas a sinceridade, quando se solta pelo corpo fora, exige mais e mais, vorazmente percorre o argumento omnipresente: Valerá a pena?

Tal como o caro Coloane, “nem sequer sei explicar como aprendi a ler e a escrever, tal como me acontece quando escrevo (…). Por vezes, faço-o com alegria e entusiasmo e outras com esforço e tédio, mas penso que se me aborreço assim com o que escrevo, mais se devem aborrecer os leitores. E então ponho tudo de lado.”, e recomeço, adiando o momento em que a minha satisfação da escrita possa ser do tamanho da quem me recordará, porventura. Até lá, também as palavras têm medo de existir, de se deixarem descobrir, porque já não fingem, já não aceitam o simples jogo da aventura, não se pretendem escondidas num amontoado indistinto duma estante incógnita. Resguardadas nos nossos lugares incógnitos, essas palavras sobreviverão ás fogueiras do tempo, pois que o que se sabe dói menos depois de se saber do que enquanto se não sabe.”[3] E então, enquanto não têm vida própria, as minhas palavras, ponho tudo de lado e vivo por aí, mas isso é outra conversa…


Castelo Rodrigo, 2009


[1] Para professoras de Português do Oitavo Ano
[2] Estilo muito indicado para professoras do Décimo Ano ou outros.
[3] Ferreira, Vergilio, Em nome da terra

12 Outubro 2009

Tal como uma pedra na minha cidade do cansaço

















Tal como uma pedra na minha cidade do cansaço

Corpo quase infinito e assim, quase liquido
São nítidas ou límpidas, as minhas palavras em silêncio.
Ainda assim
Da alma que tantas vezes imitei
Quase nada ficou.

Ferida a calma da árvore que na memória se semeou,
A minha memória resistente no grão de terra desaparecido
Assim se inicia o regresso da viagem
Da penúltima viagem

Se nem das folhas
Nem dos livros que li e rasguei,
Nada ficou

Das palavras incertas
Escritas no papel da minha carne,
De que vale a minha escrita
Nem da pele
Nem do mar que reli e risquei
Nada ficou.

21 Maio de 1993


Sem culpa formada (revisão segunda)

















Esperamos a hora

Em que tudo o que conhecemos
Irá ruir a nossos pés,
Sem qualquer culpa formada.
Num momento ou outro
Quisemos pôr tudo a claro
Mas reparámos na hora tardia.

Deixei-me abater
E senti nos olhos as tuas lágrimas,
Não consegui mudar o rumo
Sem a minha culpa
Por formar.
E gostaria que tudo o que foi
Fosse apenas um pormenor do passado.

Num telefonema, a definitiva partida,
Agora que tudo ruiu, a nossos pés
Mesmo sem qualquer culpa formada.

Lutarei a sério, agora que só
Sozinho estarei na parte escura desse
Mistério, por que o passado não morra.
Agora, enquanto escrevo,
Agora que pude compreender
Que o nosso futuro já faz parte do
Teu próprio passado,
E de forma ingénua o quiseram
Contradizer-me
Porque da culpa, ainda não há qualquer
Prova formada.
(…)

Agora que tudo o que nos era precioso
Ruiu
Poderia ter sido antes talvez
Tudo o que se adivinhava por sabermos
Das coisas do amor.
E ainda penso
Como estar contigo, seria a forma deste corpo
Estar erguido.
E poderia ter sido antes, talvez,
Em algum destes dias,
Porque o passado teima em não passar.
Porquê as lágrimas?
Porquê, continuar, se agora sozinho?
Pois tu não me vais escutar
Mas eu tive todas as razões
Para poder provar, a ti
E a mim, também
Que tudo ruiu,
Sem culpa formada.

04 de Setembro de 1984


10 Outubro 2009

Parto do Princípio

















Parto do princípio que a neve verde das serras envenena os corações

E a chuva horizontal dos ribeiros coloca na terra uma haste.

Desfeitos os equívocos dos dias e das nuvens
Corta-se das folhas das árvores o produto da esperança
O todo
Como se o temor fosse feito de papel e argila.

Húmidos os cabelos de terra,
Dedos de rosmaninho e alecrim
E ventre fecundo de imaginação.

Se o teu beijo for o sinal, o poema começa assim


Quarteira, 12 de Junho 1992

Tenho Impressão que escrever num blog dá um trabalho do caraças... e não é só fazer copy/paste!

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